8 de dez de 2010

Metades



porque, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. o quanto uso das partes que brigam dentro de mim. há muito, eu me confundo. porque metade não tem medo e levanta os braços, na descida da montanha-russa. olhos abertos, enquanto outra acha melhor enfrentar a queda com as mãos na barra. segurando forte. espremendo os dois olhos, fechados, desde o começo do percurso. metade prefere brincar na beira da praia. no raso. enquanto outra não vê problemas em pular dezenas de ondas e nadar onde a pequena bandeira vermelha, agitada pelo vento, avisa sobre o risco. sobre o possível afogamento. porque, há muito, eu erro a receita do equilíbrio. uso a parte que não deveria na hora em que não poderia. me confundo com as metades que brigam dentro de mim. porque parte acelera na estrada, no momento da curva fechada. pé direito até o fim, enquanto outra freia, bruscamente, ao ver a primeira placa. seta torta, avisando sobre o perigo. metade não suporta a burrice, a pequenez, a lerdeza. outra, sempre calada, tolera a banalidade. engole a ignorância. convive com a mediocridade. há muito, eu erro a mão. a dose. me confundo com o que devo usar. porque metade briga. explode. dedo apontado na cara, enquanto outra se recolhe, quieta, debaixo da cama. no quarto fechado. no tudo escuro. metade berra. outra sussurra. tenho uma parte que acredita em finais felizes. em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. tenho uma metade que mente, trai, engana. outra que só conhece a verdade. uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. outra que sobrevive sozinha. metade auto-suficiente. mas, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. me perco. há dias em que uso a metade que não poderia. dias em que me arrependo de ter usado a que não gostaria. porque elas brigam dentro de mim, as metades. há algumas mais fortes. outras ferozes. há partes quase indomáveis. metades que me fazem sofrer nessa luta diária. Não deixar que uma mate a outra.
Eduardo Baszczyn

4 comentários:

  1. "porque, há muito, eu erro a mão. a dose."
    ...e eu desde sempre.

    :)

    Beijos.

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  2. Dupla personalidade? Será?

    Isso me fez lembrar um tópico que li no livro "O livro de ouro da mente - Rita Carter" em que ela comentava o que ocorre em muitos casos em que, cirurgicamente, a comunicação entre os hemisférios cerebrais é 'cortada'. Em condições sadias, normais, cada hemisfério controla a metade oposta do corpo, mandando informações e induzindo movimentos, porém há sempre uma metade dominante que impõe de certa forma a sua vontade quando há conflito entre elas.

    Numa pessoa que perde a comunicação desses dois hemisférios, tal dominância se perde e o resultado é que cada hemisfério passa a agir conforme sua vontade, sem que a pessoa consiga controlar. No livro ela cita diversos casos e um que me chamou bastante a atenção foi de uma moça que disse passar HORAS tentando se vestir, pois uma mão colocava a roupa ao mesmo tempo que a outra tentava tirar a blusa.

    Parece bizarro né? Mas isso existe! São os enigmas da mente humana...

    Será que você sofre disso? Na hora que tenta se segurar na barra da montanha russa e estende o outro braço ao mesmo tempo, cada lado é dominado por um hemisfério distinto, sem que aja dominância com relação aos seus movimentos.

    Ou eu viajei demais?

    KKKKKKKKKKKKKKKK Acho mais provável a segunda opção...

    Amanhã tenho prova ai tô sem tempo agora pra ler, mas depois volto aqui pra conhecer o blog. Se foi sugestão de Mila então deve ser bom.

    Bjo

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  3. A gente tudo que é inteiro, mas esse texto diz tanto da gente não é?
    Essas metades que não alimentam e só confundem nossos sentimentos.

    Um beijo, lindinha!

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