18 de mar de 2013

cARÍSSIMO



(Hoje não escrevo. Não escrevo porque tenho em mim a vontade de não fazê-lo. E sempre respeito minhas vontades de não. Deixo com vocês, então, uma das cartas de Clarissa:)

"Se eu fosse tua, às três horas da tarde partiria a vitela em nacos graúdos, recolhendo o sangue em uma tigela de vidro. Eu fritaria a vitela e depois a cozinharia no próprio sangue, salgando-a e temperando-a com as ervas que eu plantaria no nosso próprio quintal, se eu fosse tua.

Se eu fosse tua, enquanto a vitela chiasse, eu bateria alguns ovos com leite, creme e açúcar. Eu cozinharia um pudim com calda e espremeria as laranjas compradas especialmente para o suco teu. Tu não o beberias, no entanto, preferirias cerveja, se eu fosse tua.

Se eu fosse tua, tu precisarias ser meu. E não serias assim. Não poderias. Tu não ganharias a nossa vida com palavras bonitas. Ganharias com suor e força. E só diria palavras feias, isso quando inspirado. Tu não terias o cheiro de perfume caro, não terias as mãos de pura maciez, não olharias obras de arte tentando absorvê-las. Tu serias bruto, xucro, inculto e belo. Apesar disso, tua mesma barba roçaria meu pescoço espalhando beijos de lábios graúdos, se eu fosse tua.

Se eu fosse tua, te esperaria chegar do trabalho com o jantar quase pronto. Ligaria o forno ao ouvir-te chegando e me apressaria para receber-te na porta. Te daria, então, um beijo salgado, sentindo teu cheiro forte de homem e meu. E eu te sentaria no teu sofá favorito, tiraria tuas botas cansadas e massagearia teus pés, inebriada com o cheiro. Se eu fosse tua, tu terias cheiros acres. 

Tu passarias as mãos em mim, esbravejarias pelo jantar e pedirias a primeira cerveja gelada da noite. Beberias várias cervejas, se eu fosse tua. Eu poria, então, o jantar e não comeria quase nada para que os pedaços maiores sobrassem para ti, e te ouviria, depois, reclamar de que as vitelas estavam duras de novo. Que eu não as sabia fazer. E eu sorriria me desculpando e compensaria depois... no pudim.

Por fim, eu adoçaria tua boca, esperaria teu banho e secaria tuas costas. Tu terias pelos nas costas, se eu fosse tua. Depois do jornal ou do futebol, tu deitarias, então, nos lençóis lavados, amaciados, quarados, passados e trocados todos os dias. E eu poria perfume antes de me deitar. Espalharia meu cheiro comprado em revista pela pele do corpo. E esfregaria essa pele na tua até ela ganhar o cheiro teu. E então eu dormiria, plena, entregue, satisfeita da simplicidade nossa.

Se eu fosse tua, pela manhã eu acordaria primeiro. Depois de um banho, eu prepararia teu café da manhã. Montaria as torradas, passaria o café e me entregaria de novo, se me quisesses, em meio à cozinha. Eu não teria ideias, não teria críticas, não teria voz. Teria, no entanto, a tua proteção, se eu fosse tua. E meu sonho seria esse só: ser tua. Eu sequer teria filhos. Eu 
Não sou tua! Não sou simples ou subminão dividiria minha atenção, a não ser que o tu o quisesses. Quem sabe, sendo meu, tu haverias de querer filhos. E então eu teria. Meninos, como tu poderias querer, se eu fosse tua.

Tu dirias só coisas sobre o tempo, reclamarias do Azevedo e das coisas da construção. Tu rasgarias as roupas, mancharias de graxa (ou batom alheio) e eu trocaria receitas de removê-las com as vizinhas mais velhas. Se eu fosse tua, tu serias todo piadas e palavras sujas. Tu arrotarias na sala, se eu fosse tua, enquanto eu me apressaria em me desculpar com as visitas. Mas eu não me importaria, meu amor. Não de verdade. Seria a tua casa. E eu, a tua mulher, se eu fosse tua...
ssa. Não consigo. Tu não és meu. E não te quero como és. Em algum lugar, talvez, eu e tu sejamos assim, só mulher e homem. E lá, talvez, sejamos felizes. Quem sabe é de lá que carrego essa nostalgia, essa vontade de ser tua - apesar de tudo. Ou, quem sabe, aqui somos só a concretização do desejo daqueles de lá: tu meu solitário criador, eu sem nem existir.
Da nunca tua,
Clarissa"

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