21 de jun de 2012

Dos anjos malditos...

O problema dos bichos de asas, e aqui incluo eu os anjos, é que, às vezes, eles não conseguem voar. E voar é para eles viver. Logo, não vivem.

Enfim, os bichos estes não vivevoaejam porque tem as asas úmidas demais. Às vezes de sangue, às vezes de chuva - e como gostam de se molhar, às vezes de pranto mesmo. Porque choram de inundar quarteirões, esses idiotas.

E então, sem voar, ficam perdidos pelos abismos em que andam. Batendo-se contra as paredes, formando cicatrizes novas para cobrir as velhas, lanhando com as unhas a carne do peito só para vê-lo sangrar. Como se sangrando fossem capazes de fazer escorrer junto o veneno do peito. E não são.

Vez por outra, porém, surge um tímido flutuar de sol. No começo os bichos estes rastejam para as fendas escuras a que estão mais acostumados. O brilho cega, a luz amedronta, o calor fere.

O sol, valente como é, vai invadindo cada sombra, expulsando cada temor amarfanhado na noite, espantando todos os morcegos de almas vazias. De repente os bichos que voam - e os anjos também - sentem que a luz é boa. Sentem que o calor evapora-lhes a umidade das asas. Sentem que, de repente, já podem voltar a voar.

E então lembram de outros tempos, tempos de luz e calor e sol. Tempos de nuvens macias como algodão. Tempo de cantar feito pássaro, tempo de sorrir feito criança. Tempo de, enfim, ser feliz voando e vivendo.


Abrem as asas já desacostumadas de céu. Sacodem as penas todas, testam uma, duas batidas. E enfim... glorioso voo. A liberdade de ser azul como o céu. A força do vendo varrendo do rosto as mágoas, o poder da luz curando feridas... E por algum tempo eles sabem, de novo, o porquê de terem sido feitos. Por momentos mágicos - mas momentos apenas - eles agradecem ao mundo e ao sol de que são feitos.

É lógico que o voo não dura para sempre. Sequer dura muito, porque os bichos que voam - e os anjos inclusive - foram feitos também para cair. E caem. Caem, mas por muito tempo ainda lembram da graça do voo. Ainda lembram do gosto do céu. E por isso, só por isso, esperam - mesmo que entre lamentos - que o sol volte outra vez.

Vinicius Linné

Um comentário:

  1. E o sol voltará e eles vão voar novamente e voltar a caír:)!
    Excelente texto
    Bjo

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