30 de mar de 2011

Eu sou o acidente

Derrapei. Na curva. E permaneço, até agora, preso nas ferragens cujas chamas a chuva fez o dever de apagar. Não sinalizo pedido de socorro, muito menos gasto minhas já gastas cordas vocais clamando por ajuda. Parece que nunca me senti tão confortável. Nunca antes havia encontrado prazer em ter meus órgãos esmagados em caprichos e dobraduras origami de aço e vidro. Meu olho esquerdo focaliza a pist ana qual vejo passarem todos esses carros, tão mais velozes, tão mais bonitos, novos, e com pilotos tão mais atentos do que eu. Coitados, - penso - nunca sentiram o solavanco repentino e inesperado lhes fisgar as entranhas como um talentoso assaltante que te toma a carteira e deixa de brinde um punhal te adentrando os pulmões, pelas costas. Nunca tiveram seus olhos ameaçando escapar das suas órbitas.Nunca testemunharam o momento em que aço vira papel, nem tiveram a oportunidade de torcer para que o óleo encontre a faísca. Coitados.* Eu quero mesmo é que tudo exploda. E que seja luminosa, a explosão, que ecoe pelos quarteirões e faça tremer teus vidros, quebrar tuas janelas. Que perturbe teu sono e te faça ir pra rua pra ver o que aconteceu. Você não vai me encontrar lá.* 


Eu não sou o piloto. Não sou o passageiro. Não sou o pedestre.* Eu sou o acidente, e eu sou grave.---* 

(Lucas Silveira)

8 comentários:

  1. E eu sou o instante anterior ao acidente. Quando ele está declarado, mas ainda não aconteceu.

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  2. :O profunto *-* viajei no texto... lindo ;)

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  3. nós somos acidentes diários.
    http://amandabaracho.blogspot.com/

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  4. Muito louco esse texto. E quem não se acidenta???
    Lilian obrigada por me seguir e deixar seu comentário. Bjs Cynthia.

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  5. Lindo texto, Lilian!

    que renascemos sempre mais fortes a cada abalo, a cada acidente... sempre mais belos e prontos pra qualquer parada ou topada...enfim... a vida ta aí na nossa cara!

    Um beijo, doce menina!

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  6. Renata disse:
    Ser o próprio acidente...ESSE TEXTO ME TIROU PEDAÇOS!Visceral!
    Tão grave que todos finalmente vão parar para ver o que houve.Às vezes,eu me sinto ser a causa de tanta destruição,ou pior,ser a própria destruição.Mas aí não tem mais jeito,já não adianta apaziguarem meu caos em ação.

    O Lucas é tão intenso!Fiquei apaixonada com a música O Ar(que aliás ouvi por aqui). Ele não é só mídia.Hoje eu sei disso.

    *Bjs Lilian!

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  7. nossa q texto mais delícia!
    viajei tabm como a Pequena Escritora...
    Nunca se ouvira falar a voz do próprio acidente. Perfeito!
    bjos e parabéns

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