29 de ago de 2010

O mais triste num sofrimento é se perguntar : "Vale a pena?"


Desde agora, cinco horas da tarde, até a hora em que for dormir, estarei sozinho, porque disse a todos os meus amigos que estava muito cansado e não queria ver ninguém.
A menininha para quem cuidadosamente reservei esse tempo livre nem se deu o trabalho de me avisar que não viria.
Descubro com melancolia que o meu egoísmo não era tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar.
Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.
Os contos de fada são assim. Uma manhã, a gente acorda e diz: "Era só um conto de fadas..." E a gente sorri de si mesma. Mas, no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida.
A espera, os passos leves. Depois as horas que correm frescas como um riacho em meio à relva sobre seixos brancos. Os sorrisos, as palavras sem importância que são tão importantes. Escutamos a música do coração: é linda, linda para quem sabe ouvir... 

Queremos muitas coisas, é claro. Queremos colher todos os frutos e todas as flores. Queremos sentir o cheiro de todos os campos. Queremos brincar. Será mesmo brincar? Nunca sabemos onde começa a brincadeira nem onde ela acaba, mas sabemos que somos carinhosos. E ficamos felizes.
Não gosto da estação interior que substituiu minha primavera: uma mistura de decepção, de secura e de rancor. Mergulho num tempo vazio onde não tenho mais motivo para sonhar. O mais triste num sofrimento é se perguntar : "Vale a pena?"
Vale a pena todo esse sofrimento por quem nem mesmo pensa em avisar? Certamente não. Entaõ nem sofrimento se tem mais, e isto é ainda mais triste.
Não há Pequeno Príncipe hoje, nem haverá nunca mais. O Pequeno Prícipe morreu. Ou então tornou-se cético. Um Pequeno Principe cético não é mais um Pequeno Príncipe. Fiquei magoado com você por tê-lo destruído.
Também não haverá mais carta, nem telefonema, nem sinal. Não fui muito prudente, e não pensei que pouco a pouco, com isso, arriscava um pouco de sofrimento. Mas eis que me feri na roseira ao colher uma rosa.
A roseira dirá: "Que importância eu tinha para você?" Chupo meu dedo, que sangra um pouquinho, e respondo: "Nenhuma, roseira, nenhuma. Nada tem importância na vida. (Nem mesmo a vida.) Adeus roseira."


A.
Antoine de Saint Exupéry

8 comentários:

  1. LINDO, minha querida...lindo!
    vou postar a outra carta um dia desses..
    depois passa la...bjos

    ResponderExcluir
  2. SEMPREEEEEEEEEEEEEE VALEEEEEEEEEEE>..
    E se não valer, é só pouca coisa!
    =D

    ResponderExcluir
  3. "Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida".

    Há muito simbolismo e variados significados na simplicidade das entrelinhas dos contos de fadas...

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  4. "Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Vou me lembrar disso ♥

    Abraço forte!

    ResponderExcluir
  5. Achei triste. Bonito. E real.

    Beijos, minha linda. Te acho o máximo :)

    ResponderExcluir
  6. Adorei!

    Há uma melancolia tao cheia de verdade! Quantas roseiras nao andam por aí a destilar seus venenosos espinhos e destruir sonhos?

    Talvez o conto de fadas seja esse afinal:
    Talvez cada roseira tenha sido um pequeno príncipe que cético e ferido transformou-se em espinho, e nada mais importe. NADA mais...

    Mas um dia essa rosa será amada como merece porque "Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante"

    Milhoes de beijos

    ResponderExcluir

Agradecemos a preferência.Volte sempre ! :)